Ações não dão direito de voto aos compradores, mas o caso causa polêmica
na Assembleia Legislativa.
Reportagem
Dayane Farinacio
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Ações preferenciais
vendidas só podem se converter em ações ordinárias se a Sanepar não repassar os
lucros para os investidores. (Foto: Dayane Farinacio)
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A Companhia
de Saneamento do Paraná (Sanepar) anunciou, no fim de fevereiro, o aumento do
capital social da empresa de R$ 2,6 bilhões de reais para R$ 4 bilhões. O
projeto, proposto pelo governo do Estado, foi votado e aprovado pela Assembleia
Legislativa dia 19 de março e teria como objetivo captar recursos para
investimentos e ampliações dos serviços de tratamento de água e esgoto por todo
o Estado.
Segundo a bancada governista da Assembleia, as ações disponíveis no mercado são preferenciais e não dão aos acionistas direito de voto, o que garantiria o controle da Sanepar pelo governo, que é o dono da maior parte das ações.
Segundo a bancada governista da Assembleia, as ações disponíveis no mercado são preferenciais e não dão aos acionistas direito de voto, o que garantiria o controle da Sanepar pelo governo, que é o dono da maior parte das ações.
Polêmicas
Dentro da
Assembleia Legislativa, uma das divergências gira em torno da influência
privada dentro da estatal. A oposição defende que mesmo que as ações sejam
preferenciais, a presença de mais investidores privados vai aumentar a pressão
por lucros o que pode levar ao aumento da tarifa cobrada pelos serviços.
Para o líder
da oposição na Assembleia, deputado Elton Welter, a estratégia do governo
privilegia o sócio privado e fragiliza o poder do Estado. “Com o aumento do
capital social vai haver mais pressão dentro do conselho da Sanepar para exigir
o aumento da tarifa e dos lucros”, declara.
A Sanepar,
procurada pela reportagem, explicou que não pode comentar o assunto por conta
de restrições feitas pela Comissão de Valores Mobiliários, que rege o mercado
de ações no Brasil, devido ao estágio da venda das ações. Porém, o deputado
Ademar Traiano, líder da situação na Assembleia, diz que o capital conseguido
com a venda das ações será utilizado para investimentos e manutenção dos
serviços, especialmente no interior, e para planejar a entrada da estatal no
nicho de processamento de lixo. Além disso, segundo o deputado, a Sanepar não
poderia fazer correções na tarifa porque a regulação não é feita pela direção
da estatal, mas por uma agência reguladora. “No Paraná, a agência reguladora é
a Agência das Águas. Não há
nenhuma previsão de aumento da tarifa para o consumidor neste momento”, conta.
A suposta dívida de 700 milhões do Estado, de
acordo com dados da Secretaria da Fazenda, também causou discussão. A hipótese
é de que a venda das ações seria uma manobra do governo para cobrir a dívida
divulgada pela Secretaria da Fazenda, principalmente porque a proposta foi
votada em caráter de urgência na Assembleia e, para ser aprovada, foi
necessário que dois deputados que atuam hoje como secretários do Estado
retomassem seus postos.
Segundo Traiano, a votação ocorreu de maneira
emergencial para que a Sanepar pudesse cumprir o prazo de entrega dos papeis
necessários para a entrada da estatal no mercado de ações - o último prazo era
26 de abril. Para o líder da oposição, entretanto, é possível que a pressa seja
porque o Estado está tentando usar o dinheiro conseguido com a venda das ações
para pagar suas dívidas. “É, talvez, um desespero de buscar dinheiro de forma
indireta”, defende.
Ações preferenciais
Diferente
das ações de tipo mais comum - chamadas ações ordinárias -, as preferenciais
servem para capitalizar a empresa. Os compradores desse tipo de ação visam
retorno financeiro pela valorização das ações na bolsa de valores, e não
controle acionário, já que as ações de tipo preferencial não permitem que o
acionista vote e interfira nas decisões da empresa.
Segundo
Marcos Leandro Pereira, advogado especialista em direito societário, no caso da
Sanepar, é necessário vender ações preferenciais. “A Sanepar só pode vender
ações preferenciais, porque se ela emitir ações ordinárias, o Estado perde o
controle da empresa”, explica.
A Sanepar se caracteriza como uma sociedade de
economia mista, em que é possível ter recursos públicos e privados e oferecer
ações no mercado financeiro, diferente de uma empresa pública, por exemplo,
como os Correios ou a Caixa Econômica Federal, em que todos os recursos devem
ser públicos. Estatais como a Sanepar também são diferentes das autarquias, que
têm personalidade de direito público e, portanto, não podem oferecer ações.
Emerson Gabardo, professor de direito administrativo (UFPR/PUC-PR), explica que para uma estatal abrir seu capital social ela precisa continuar com a maior parte das ações em poder público. “A lei diz quanto do orçamento deve ser público, e pode ser de vários ‘públicos’ [União, Estados, Municípios]. A empresa não deixa de ser estatal pelo aumento de capital privado”, conta.

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