quarta-feira, 9 de julho de 2014

Marionetes encantam a Rua XV de Novembro

Pelo movimento dos bonecos, artista de rua alegra quem caminha pela rua XV de Novembro

Thais Barbosa

A Rua XV de Novembro recebe, diariamente, a presença dos bonecos de Élder Kloster
(FOTO: Thais Barbosa)

 

 No meio do calçadão da Rua XV de Novembro, centro de Curitiba, uma música desperta a curiosidade de quem passa por ali. É a voz de Tim Maia:“Alô, Rio de Janeiro! Aquele abraço!”. Os olhos, imediatamente, viram-se em direção aos bonecos articulados de Élder Kloster, artista de rua. Com músicas tipicamente brasileiras e bonecos que dançam em um ritmo particular, o rapaz consegue “quebrar o gelo” curitibano.
 Kloster veio de Guarapuava, interior do estado, há seis anos para conseguir melhores condições de trabalho na área de Economia, curso no qual é formado. Após trabalhar por, aproximadamente, quatro anos em um escritório, a arte falou mais alto: “De dois anos pra cá sobrevivo, como artista de rua”. Ele recorda que começou como palhaço na Praça Osório, também no centro da cidade. Lá, passou um tempo com artistas que lhe ensinaram experiências da vida na rua. O artista também se envolveu com o teatro e, para um espetáculo de festa junina, aprendeu a fazer marionetes.
 O primeiro boneco criado foi o de Luiz Gonzaga. Quando o boneco dança, acompanhando as músicas de forró do compositor nordestino, uma senhora, também do Nordeste, fã de Kloster e de Gonzaga, confessa que “memórias de sua terra natal lhe vem à mente”, conta o artista, que acrescenta: “Ela vem aqui sempre, canta as músicas do Gonzaga em voz alta, não quer nem saber”, brinca.
Os bonecos se movimentam de acordo com o ritmo do artista
(FOTO: Thais Barbosa)
Depois veio o Tim Maia e, em construção, está “O Rappa”. O processo de produção dos bonecos exige tempo e paciência. A colagem entre isopor, kraft, espuma, tela e gesso demora três semanas para ficar pronta, mesmo que o trabalho seja feito durante manhãs e tardes. Para secar, as peças dependem do clima — o tempo úmido interfere negativamente no tempo de produção. O processo criativo, porém, é rápido. A inspiração vem naturalmente, sem ensaios.
Mesmo com o talento evidente, o artista não tem apoio da família que não aceita sua escolha – a não ser da esposa, que vê na arte do marido uma maneira de estar mais próxima à cultura “Família só reconhece artista quando ele aparece na Globo, né?", contesta o rapaz.
 A instabilidade financeira veio como consequência da atividade nas ruas. Antes, como trabalhador registrado, Kloster não tinha que se preocupar com a renda mensal. “Eu ganhava bem. Agora, na rua, eu não sei o quanto eu vou ganhar. Num dia pode ser cem reais e em outro apenas cinco reais”.
 Apesar de saber que terá que lutar mais pelo seu sustento, o artista revela que acorda muito mais feliz, e sua motivação vem da vontade de ver o sorriso em outras pessoas. “O povo precisa dar mais risada. O mundo já não é tão bom de se viver, sem arte, então...”, lamenta.
 Contudo, o mesmo público que Élder ama ver sorrir, às vezes o entristece. Em algumas ocasiões, o marionetista percebe que as pessoas desviam do caminho para não passar por ele. “Nesses momentos, eu me sinto um monstro”, lamenta. “As pessoas confundem muito o artista de rua com um pedinte, mas são coisas muito diferentes. Curitiba precisa valorizar mais que trabalha nas ruas, ainda mais com arte”, reflete.
 Mas, Kloster continua seu trabalho ainda que enfrente a falta de consideração e a temperatura baixa das ruas curitibanas: “Você pode se alegrar com poucas coisas, sabe? Ficar feliz durante alguns segundos, esquecer do que você tem que fazer”. Assim, por meio do rebolado dos bonecos, o artista desperta a criança que existe dentro dos passantes da XV. “O adulto perdeu um pouco a inocência, precisamos voltar à criança que a gente é”, finaliza.

A placa é uma forma de pedir mais respeito à arte de rua
(FOTO: Thais Barbosa)



sábado, 7 de junho de 2014

Com opções mais práticas, cozinhar já não é unanimidade

Falta de tempo e de interesse são fatores que podem levar as pessoas a optarem por congelados e restaurantes

Reportagem Anna Jardanovsky

Cursos de culinária atraem curiosos e profissionais para um aprendizado mais profundo da área. Número de empregos gerados no setor aumentou cerca de 20% de 2006 para 2010 (Foto: divulgação)

Classificada por muitos como arte, a culinária pode representar prazer para alguns – mas pesadelo para outros. De acordo com um estudo conduzido pela rede de supermercados inglesa “Somerfield”, 70% dos adultos não sabem fazer ovo cozido e 83% não sabem quanto tempo leva para fritar um bife

Um exemplo desta inabilidade na cozinha é o do empresário curitibano Rodrigo Federici, de 45 anos, que em casa se alimenta basicamente de congelados. “O máximo que eu preparo é macarrão instantâneo com almôndegas, que eu compro prontas, congeladas.” Federici conta também que sai para comer em restaurantes em média duas ou três vezes por semana, no caminho do trabalho. “Não saio tanto porque senão sairia muito caro. Se eu dispusesse de um pouco mais de tempo, eu faria um curso de culinária. Meu trabalho me sobrecarrega demais, então chega final de semana e eu só quero descansar”, argumenta.

Segundo a nutricionista Carla Leão, o segredo para ter uma alimentação à base de congelados saudável está na escolha inteligente dos alimentos e no tempo que ficarão congelados. A nutricionista enfatiza que comida congelada não é apenas a famosa lasanha pronta. “Há muita variedade de comida congelada saudável e de fácil preparo nos mercados, como legumes, carnes, sopas... As pessoas que não sabem cozinhar tendem a comprar muito macarrão instantâneo ou lasanhas de microondas, que são algumas das piores refeições industrializadas, por serem ricas em sódio e gordura saturada”, alerta a profissional.

A nutricionista explica também que a maior parte dos alimentos não deve ficar congelado por mais de três meses. “Alguns nutrientes são perdidos se a comida fica por muito tempo no freezer. Descongelar e congelar novamente também não é recomendado. Mas, o ideal seria sempre comer uma refeição preparada na hora”, afirma.

Para quem opta pela refeição preparada na hora mesmo sem ter tempo para o seu preparo, os restaurantes são a única – e cara – opção. Além da alta do preço dos alimentos nos últimos meses, o presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Paulo Solmucci, afirmou que os cardápios terão um aumento de preço de 10% a 12% durante a Copa do Mundo. Esse aumento se deve principalmente a alta de 2,25% no preço das bebidas, que representa cerca de metade do faturamento de bares e restaurantes, segundo a associação.


Apesar de já se tornar raro, outro motivo para o afastamento da cozinha, além da falta de tempo, pode ser também o fato de simplesmente não se precisar cozinhar, como conta a aposentada curitibana Eugênia Lemos de Almeida, de 62 anos. “Tenho a Joana, que é minha cozinheira já há quase 40 anos. Ela chega aqui em casa às 10 horas da manhã e faz o almoço. Depois de arrumar tudo, às 16 horas, ela começa a preparar o jantar, e de noite eu só esquento. O único momento que eu vou pra cozinha é no café da manhã, para fazer uma salada de frutas ou um pão com geleia e suco”,  conta. Para a aposentada, a vida é mais cômoda desse jeito. “Nunca tive interesse em cozinhar. Dessa forma, gasto meu tempo com coisas que eu realmente gosto, como literatura e música. Meus netos já se acostumaram que o ‘almoço de domingo na vó’ é na verdade o almoço de sábado feito pela Joana”.

Mas, para quem quer correr do preço dos restaurantes que pesam no orçamento no final do mês, não tem uma profissional da cozinha à disposição ou quer evitar congelados todos os dias, há uma saída: aprender a cozinhar.

Gustavo Rasca, de 20 anos, sabia cozinhar apenas o básico quando decidiu fazer o curso de Chef de Cuisine do Centro Europeu. “Fui fazer o curso porque sempre gostei de culinária, sempre achei uma profissão interessante. Não sei se vou seguir, a princípio estou fazendo para conhecimento próprio. No curso aprendemos tudo, da culinária francesa e tailandesa até a gestão de um restaurante. É bem útil, meus amigos jantam na minha casa todo o final de semana agora”, brinca Rasca.

Em Curitiba, há diversos cursos para quem quer aprender apenas o básico, assim como para quem deseja aperfeiçoar os dotes culinários. Na FAS (Fundação de Ação Social), as aulas são gratuitas, e os cursos vão desde culinária básica até a preparação de ceias de Natal e Ano Novo. Na escola Centro Europeu, há os cursos pagos anuais de Chef de Cuisine e Chef Gourmet – a diferença é basicamente que o primeiro forma profissionais e o segundo apenas amplia conhecimentos. Para mais informações, o contato da FAS é (41) 3240-1301 e do Centro Europeu (41) 3222-6669.

A difícil escolha pelas carreiras científicas

Segundo informações divulgadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes), apenas 1% dos vestibulandos escolhe a carreira científica


Arthur do Carmo

A orientação na escolha profissional não faz parte dos currículos das escolas de ensino médio ou fundamental. As dificuldades que os estudantes enfrentam ao pensar em optar por uma carreira diante de tantas possibilidades acaba se refletindo no número de evasão das universidades. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, Ministério da Educação (INEP/MEC), há uma desistência de 40% nos cursos de graduação do país. Mas as carreiras científicas enfrentam um problema ainda maior, que é a não opção pelos vestibulandos, que ocorre principalmente pela falta de informação.

Segundo dados divulgados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes), apenas 1% dos vestibulandos escolhe a carreira científica, nas  áreas de ciências biológicas e exatas, gerando, por exemplo, uma carência de cerca de 70 mil professores de Física no país.

A  neuropsicologista e orientadora vocacional Bianca Bortolini, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), afirma que a escolha da profissão deve seguir critérios rigorosos, para que os estudantes não se frustrem com a opção realizada. Além do aconselhamento profissional, ela destaca dois pontos principais: “O que eu peço para os meus pacientes são duas coisas após chegarmos a um número pequeno de opções profissionais, geralmente três. Primeiro, que ele consulte algum almanaque de profissões. O que eu mais recomendo é o Guia do Estudante da Editora Abril, onde ele irá encontrar um descritivo a respeito das profissões, quais são os melhores cursos no país, qual é o salário médio inicial, quanto tempo vai durar o curso, além de contar um pouco a respeito da vida profissional de cada profissão.”, afirma a profissional. A outra medida funciona através do que Bortolini chama de “pequena convivência”. “Eu oriento uma convivência profissional com alguém da área. Essa pequena convivência é fundamental para o estudante tirar dúvidas sobre a carreira e observar como ela funciona na prática, para conhecer a realidade da profissão”, comenta.

Com a intenção de aproximar os estudantes do cotidiano da profissão, foi lançado ano passado um portal que se propõe a auxiliar alunos do ensino médio a compreenderem a carreira de cientista. Em linguagem acessível aos alunos que acabaram de ingressar no nível médio, o portal batizado Proficiência (proficiencia.org.br) reúne informações que vão desde o que é ser um cientista até quais as atividades que cada área em geral e profissões científicas em particular desenvolvem. 

A responsável pelo projeto, jornalista Elisa Oswaldo-Cruz, assessora de imprensa da Academia Brasileira de Ciências (ABC), teve a ideia ao perceber que havia um rico material de entrevistas sobre o cotidiano dos cientistas ligados à ABC que estava restrito à própria comunidade científica, e que poderia auxiliar os estudantes que iriam prestar o vestibular. 

O aluno do 2o ano do Ensino Médio do Colégio Estadual do Paraná Felipe Poveda quer seguir a carreira de Físico, mas tem receio de restringir sua atuação a de professor. “Eu não conheço muito bem ainda como posso trabalhar com Física  a não ser como professor. Não que eu não queira dar aula, mas quero continuar estudando o que eu gosto, que são os problemas de Física”, comenta o aluno, que diz já ter se decidido por essa área. 


O Portal Proficiência traz entrevistas com profissionais das áreas científicas, aproximando estudantes do cotidiano das carreiras. Fonte: Reprodução.




Auxílio à orientação feita pelos próprios professores

Além de indicar os traços das profissões e canais de informação que podem auxiliar os alunos a escolherem as suas carreiras, como o Portal Proficiência, os professores podem encontrar outros meios de descobrir o perfil de seus alunos e assim ajudá-los de maneira mais precisa. É o que propõe o Observatório Ibero-americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade, que publicou em 2011 um livro chamado “Os estudantes e a ciência: pesquisa com jovens ibero-americanos”, em que pesquisadores brasileiros do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constataram que a principal fonte de informações sobre ciência e tecnologia dos estudantes do Ensino Médio e Fundamental ainda é a televisão, e que apenas 2,7% dos jovens entre 15 a 19 anos pensam na opção por uma carreira científica.

Outros resultados ainda apontam que 78% não pensam nessa carreira por acharem as ciências exatas e naturais “muito difíceis”, enquanto  um quarto acreditam que tais áreas oferecem oportunidades limitadas de emprego. O livro, que está disponível no site do Centro de Altos Estudos Universitários da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e pode ser acessado aqui, se constitui como importante ferramenta para educadores e orientadores vocacionais.  



quinta-feira, 5 de junho de 2014

Iniciativa insere jovens em discussões sobre política

Projeto Theorein, do Colégio Medianeira, coloca alunos do Ensino Médio em contato com a política paranaense para a formação de uma sociedade mais justa

Bruna Junskowski

Em 2013, alunas do segundo ano do Ensino Médio, conseguem uma entrevista com o Presidente da Assembleia Legislativa, Valdir Rossoni. (Foto: Jerson Darif) 
Levar alunos a se aproximarem do parlamento para que se tornem adultos mais críticos em relação à política é o objetivo de um projeto criado em 2012, no Colégio Medianeira, de Curitiba. O Projeto Theorein procura inserir a preocupação com o futuro político do Paraná em alunos do primeiro e segundo ano do Ensino Médio, como forma de promover uma sociedade mais justa.

Idealizado pelo professor de filosofia Jerson Darif, 43, o projeto surgiu de uma inquietação do docente ao observar jovens de 14 a 16 anos reproduzirem o discurso de adultos: de que a política e o Estado não funcionam. Segundo ele, a falta de acompanhamento do trabalho dos políticos e a veiculação de escândalos no governo por parte da mídia afastam a população da política. “A partir dessa percepção, procurei uma maneira para que eles pudessem chegar mais perto dos parlamentares e ter um juízo melhor, com suas próprias conclusões. Sem intervenções da mídia”.

Atualmente, o projeto conta com a participação do professor de filosofia do primeiro ano do Ensino Médio, Carlos Torra, e os professores de geografia e história do Colégio Medianeira. 

O funcionamento do projeto é dividido em três trimestres em que se busca formar uma consciência cidadã e política nos alunos. No primeiro, os estudantes realizam uma leitura teórica sobre o surgimento dos partidos políticos e fazem uma visita ao diretório de um dos partidos para analisar se as pessoas que trabalham nos diretórios conhecem a tipologia partidária.

No segundo semestre, os grupos, formados por seis alunos, buscam contato direto com um vereador – para os alunos do primeiro ano – ou um deputado – para alunos do segundo ano. Nesta etapa, os grupos devem monitorar as atividades do parlamentar: observar se ele comparece ao Plenário, quanto recebe e quanto gasta, se já se envolveu em algum escândalo, entre outras questões. É preciso fazer um mapeamento de como o parlamentar atua e fazer um esforço para conseguir uma entrevista.

O trabalho no terceiro trimestre é diferenciado. Segundo Darif, a proposta é estudar filosofia política com música. “É um trabalho para perceber os movimentos de contestação política, que ocorreram no mundo a partir dos anos 1950, com uma ponte com o rock ‘n roll”, explica.

Heloísa Nerone, 16, aluna do segundo ano do Ensino Médio, já se interessava por política e o projeto só veio a acrescentar. Para ela, a iniciativa é importante porque o aluno é independente, tem a autonomia para marcar entrevistas e ir até os locais onde os políticos estão. “Além de entrar em contato com as pessoas da politica e ter a sensibilização sobre os poderes e suas funções, o trabalho não é pesado porque é muito dinâmico”, conta ela.

Os benefícios

Rodrigo Siguimura, 17, estudante de jornalismo da PUC/PR, participou do Projeto Theorein em 2012 e, na época, não tinha interesse em política. Para ele, a percepção política estava baseada no senso comum da crítica aos parlamentares. Hoje, Rodrigo planeja criar um programa político, já que é ano de eleições, para promover a discussão sobre os candidatos. “Com o projeto, a curiosidade em relação ao tema aumentou. 
Tenho muito mais interesse por esse meio do que tinha antes”, explica.

Para o professor de Ciência Política da faculdade de direito da UFPR Fabrício Tomio, 44, esse tipo de projeto tende a fazer com que os alunos envolvidos tenham um grau de engajamento mais elevado no futuro. Tomio acredita que as atividades propostas são interessantes porque mostram aos alunos o que os representantes fazem e como funciona a Câmara de Vereadores e a Assembleia Legislativa. “Há um descompasso entre o que se acredita que os representantes fazem, o que se espera que façam e qual é o papel institucional deles, de fato”.

Duas alunas do projeto já garantiram que pretendem iniciar uma carreira política. Outros alunos se inseriram em alas juvenis de partidos políticos. Para o professor do Projeto Theorein, Jerson Darif, tão importante quanto essas atitudes, são as discussões sobre política que tem se tornado mais corriqueiras. “Eles têm tido a percepção que não podemos ficar apenas com as narrativas que são construídas sobre os políticos, que devem pesquisar por si próprios”, acrescenta

Heloísa Nerone é um exemplo dessa afirmação. As eleições de 2014 serão a primeira que participará e acredita que está preparada. Ainda em dúvida sobre qual carreira seguir, ela tem certeza de que é obrigação dos eleitores ir atrás dos candidatos. “A cada dois anos, tem eleição. Pesquisar é um esforço muito pequeno, considerando que os mandatos duram quatro anos”, justifica.

Recusa dos parlamentares

A dificuldade do projeto está em sua própria essência: os políticos. Segundo Darif, a maioria dos parlamentares a serem monitorados se recusa em falar com os alunos. Mesmo os assessores de imprensa, pelos quais os estudantes devem entram em contato para colher as informações necessárias, são rudes.

De acordo com o professor coordenador, cerca de 80% dos parlamentares não respondem e-mails, não tem páginas no Facebook ou, se tem, não respondem, da mesma maneira que os sites são muito desatualizados. “A indiferença dos políticos em relação aos alunos é muito saliente. A grande maioria não está preparada para ser questionada”.

Um caso que chamou a atenção do professor e dos alunos foi a rejeição inicial de uma assessora de imprensa em ceder uma entrevista aos estudantes. Após saber que eram alunos do Colégio Medianeira, ela aceitou. Conforme o professor, a assessora inicialmente se recusou por imaginar que se tratava de estudantes de escola pública.

Para o professor Tomio não há motivo para tal recusa e a atitude não é razoável, pois revela que os políticos em questão acham que não devem prestar contas a esses jovens. “Não sei se prestam conta para quem eles acreditam ser seus eleitores, muitas vezes não. Mas isso implica um certo desdém na obrigação de fazer isso”, interpreta.

Espaços apostam na linguagem gourmet para crianças

Aulas de culinária e restaurantes diferenciados levam o gosto pela gastronomia ao público infantil
Reportagem Giovana Monaris
As escolas de gastronomia têm, cada vez mais, apostado em cursos voltados para o público infantil. É o caso do curso Cozinhei­­ri­­nhos do IGA – Instituto Gastronômico das Américas, em Curitiba. O programa tem duração de oito meses e é dividido em dois níveis: o primeiro recebe crianças de 8 a 11 anos e o segundo, adolescentes de 12 a 15 anos. Aos se matricularem, os futuros pequenos chefs recebem uma touca e um avental, além de uma apostila com dicas culinárias, história de alguns ingredientes e as receitas que serão feitas ao longo do curso. Dentre elas estão massas, omeletes e tortas doces.
“As crianças literalmente colocam a mão na massa e fazem da experiência da gastronomia uma deliciosa brincadeira”, explica a diretora geral do IGA Brasil, Graciela Sanfilippo. Os cuidados necessários com facas, fogão e utensílios são ensinados às crianças assim como as normas de higiene para que o alimento fique sempre saudável, fresco e saboroso. “Sem perceber, enquanto estão seguindo uma receita, trabalham diversas áreas do conhecimento como a matemática, quando conta ou pesa um ingrediente, e o português, por meio da leitura da receita. Cozinhar também trabalha a concentração, cooperativismo, organização e educa o paladar, além de ensinar hábitos de uma alimentação saudável e nutritiva” finaliza Graciela.

A chef Patrícia Skivera divide seu tempo de trabalho entre a cozinha de um restaurante e as cozinhas de várias escolas de gastronomia em Curitiba. É ela a atual responsável pelo curso Cozinheirinhos em Curitiba, que está funcionando com seis crianças entre 11 e 14 anos, das quais quatro são meninos. “É muito gostoso trabalhar com eles”, conta Patrícia. “Trabalho também com turmas de adultos e o clima é outro. Com eles a aula é voltada para o mercado de trabalho e eu tenho que ser muito exigente, pois lá na frente o aluno vai ser cobrado pelo chefe ou pela clientela. Com as crianças a aula é mais leve e eu fico mais tolerante com erros, embora também exija que eles façam o melhor possível”, acrescenta.
Alguns cuidados especiais são tomados durantes as aulas com os pequenos. Os ingredientes das receitas que serão feitas no dia, por exemplo, já vêm preparados e separados em potinhos com a quantidade certa a ser utilizada. O chamado mise en place evita que as crianças precisem cortar ingredientes e se arriscar com utensílios que oferecem perigo a elas. O uso de forno e fogão só é feito sob a supervisão cuidadosa da chef.
Além do IGA, em Curitiba há cursos rá­­pidos de culinária para crianças no Es­­­paço Gourmet Escola de Gastro­­nomia, no Centro Europeu e na Coquilles Escola de Gastronomia. A duração média é­­ de cinco aulas, uma vez por semana, e­­ as turmas são separadas conforme a idade. No Espaço Gourmet, por exemplo, há um módulo para alunos de 5 a 9 anos e outro para os de 10 a 15 anos. Os pais participam com os filhos. Em outras cidades há escolas voltadas integralmente ao público infantil, como a Minichefs Escola da Gastronomia, de São Paulo, e a Personal Mini Chef – Educação Alimentar e Culinária Infantil, de Porto Alegre, que possui turmas divididas por faixa etária e pacotes de oficinas de culinária para festas infantis.
Na aula do Cozinheirinhos, os pequenos chefs seguem à risca as receitas do material que recebem. Foto: Giovana Monaris
Influência ou talento?
E de onde vem o gosto dos pequenos pelas habilidades da cozinha? Muitas vezes da influência de pais ou familiares. A decoradora Eliana Bonfim é mãe de Christopher, de 13 anos, e conta que o filho já queria brincar com panelas e observar adultos cozinhando desde pequeno. “A ideia é, no futuro, deixar a cozinha de casa para ele”, completa. Já a terapeuta Samira Ghattas conta que o filho Mickael, de 13 anos, já está levando o pai para cozinha. Ela ressalta a importância social de cozinhar: “A cozinha une pessoas. Mesmo que meu filho não chegue a se tornar chef profissional, ele pode organizar jantares para os amigos, cozinhar para uma namorada...”, enumera.
 Mas o interesse pela culinária também pode vir de programas de televisão. Visto por todas as crianças do curso, o Junior MasterChef é um reality show onde crianças mostram suas receitas para especialistas e competem pelo troféu de Junior MasterChef. Criado na Austrália, o formato do programa já foi vendido para diversos países, tamanho o seu sucesso. No Brasil, é exibido pelo canal pago Discovery Home and Health.
Espaço para pais e filhos
A chef Denise Pereira Araújo estava sempre em busca de programas diferentes para fazer com seus filhos pequenos, até que decidiu transformar o desejo em negócio e criou o Bistrozinho, um espaço para integrar adultos e crianças. “O que nós fazemos é servir comida ‘de adulto’ com apresentação lúdica, que encanta as crianças”, conta Denise. Dentre os mimos que a casa oferece para a criançada estão as louças que acompanham canetinhas especiais para rabiscá-las. O amplo ambiente do restaurante conta ainda com livros infantis, lousas de giz e brinquedos. Mas o maior cuidado está no cardápio, que Denise define como “simples, sem nada muito elaborado, porque muitas crianças já têm dificuldade para comer”. O carro-chefe do menu é fettuccine à bolonhesa, mas entre as opções mais pedidas estão também a Polentinha, a Moquequinha e a Hortinha – com “terra comestível”. A preferência da casa é por ingredientes orgânicos. Frituras são banidas. O Bistrozinho oferece ainda dois tamanhos de pratos – P e G -, um cardápio especial de sobremesas e um menu de atividades para as crianças. Mas se engana quem vai ao local contando com monitores com quem deixá-las. “Quis fazer um ambiente que agrade tanto aos pais quanto aos filhos, para que eles possam curtir um momento juntos”, conta Denise.
Tigela comestível, canetinhas que pintam porcelana e pratos interativos: tudo isso está no cardápio do Bistrozinho. Foto: reprodução

Serviço

Bistrozinho. Alameda Presidente Taunay, 543, Bigorrilho - (41) 3018-3034. www.bistrozinho.com.br.

IGA. Avenida Nossa Senhora Aparecida, 775, Seminário – (41) 3027-0971. www.iga-la.com/pt/br/.

Espaço Gourmet Escola de Gastronomia. Al Prudente de Moraes, 129 F, Mercês – (41) 3019-0437. www.espacogourmet.com.br.

Centro Europeu Profissões e Idiomas. Alameda Princesa Izabel, 1300, Bigorrilho – (41) 3222-6669. www.centroeuropeu.com.br.

Coquilles Escola de Gastronomia. Av. Iguaçu, 3854 - Água Verde – (41) 3076-5844. www.coquilles.com.br.

Minichefs Escola de Culinária Infantil. São Paulo – SP. (11) 3582-5088. www.minichefs.com.br.


Personal Mini Chef – Porto Alegre – RS. (51) 3508-1629. www.personalminichef.com.br.

Projeto de lei busca diminuir violência nas manifestações


A Lei Antiterrorismo tramita no Legislativo, mas é questionada quanto a sua relevância

Reportagem Fernanda Tieme Iwaya


As manifestações de rua que ocorreram no ano passado, em diferentes cidades do país, geraram preocupações no governo quanto a novas ocorrências durante os eventos esportivos que o país sediará: a Copa do Mundo, que se inicia em junho, e as Olimpíadas de 2016. Assim, projetos de leis tramitam no Congresso Nacional e medidas preventivas foram criadas, no intuito de prevenir o uso de violência em protestos pacíficos. No entanto, um projeto em especial, conhecido como Lei Antirrerorismo, tem causado dúvidas e discussões quanto sua aprovação e abrangência, dentro e fora no Senado.

O projeto de lei número 499 foi produzido por uma comissão mista de deputados e senadores, presidida pelo senador Romero Jucá (PMDB/RR) e pelo deputado Cândido Vaccarezza (PT/SP). Apresentado no final de 2013, considera terrorista aquele que provocar pânico generalizado e que ameaçar a vida ou a integridade física de outra pessoa. São enquadrados na lei também aqueles que praticarem terrorismo contra patrimônios públicos ou privados, incitação, formação e financiamento de grupo terrorista. A proposta estabelece condenações que variam de 3 a 30 anos de reclusão. A lei prevê penas de 8 a 20 anos para quem promover o "terror" em estações de trem, instituições de ensino e prédios do Poder Executivo, além de outros serviços essenciais. Em caso de incitar o terrorismo, a pena é de 3 a 8 anos e, para quem provocar ou difundir o terrorismo de alguma forma, pode ser de 15 a 30 anos de reclusão. Em caso de morte, a condenação é de 24 a 30 anos.



No ano passado, ocorreram várias manifestações pelo Brasil em fator do descontentamento com medidas do Governo que geraram reações do Legislativo (Foto: Marcos Solivan/UFPR)

Nesse contexto, a iniciativa, que ainda é debatida no Legislativo, é questionada pela possibilidade de ter como objetivo inibir que manifestações pacíficas de descontentamento ocorram para o país não ficar mal visto internacionalmente. A vice-diretora do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná, Vera de Chueiri, explica que o projeto parte da premissa de que é importante o Estado usufruir da força repressiva para criar uma falsa ilusão de segurança para os que estão vindo prestigiar um evento grande como a Copa do Mundo. A vice-diretora ainda comenta que a iniciativa é uma tentativa de mostrar uma falsa estabilidade do Brasil para as outras nações.

De acordo com o senador Romero Jucá, em entrevista para o Portal de Notícias do Senado Federal, no entanto, o projeto de lei nada tem a ver com os movimentos sociais, e é um equívoco pensá-lo como forma de inibi-los. Ele afirma que a intenção é puramente oferecer ao país uma lei moderna e mais dura contra o terror, pois para quebra-quebra, violência nas ruas ou outras ilegalidades, existe o Código Penal, que prevê, por exemplo, dano ao patrimônio, lesão corporal e danos a terceiros. O senador Álvaro Dias (PSDB/PR) revela descontentamento à iniciativa do projeto e considera desnecessário, falho e atropelado, além de visar atender somente aos interesses da Fifa. “Isso fere a nossa soberania. É uma forma de desestimular a participação das pessoas em manifestações de descontentamento”, comenta Dias em publicação no seu site.

A criação do projeto é considerada exagerada em um país que não apresenta históricos de terrorismo. “É preciso definir bem o conceito do termo, que é muito complexo, antes de ser abordado dessa forma”, diz Chueiri. A especialista ainda esclarece que a medida pode ferir direitos constitucionais dos cidadãos, pois tudo o que impede que algum movimento se expresse tira o direito de livre manifestação, o que viola um direito fundamental.

Sobre o uso de violência em manifestações, o cientista político e professor de sociologia da UFPR, Ricardo Costa, afirma que é motivado pela falta de representatividade e fragilidade política de pequenos grupos. O estudante de direito e participante de protestos André Heige, de 31 anos, discorda. Ele acredita que o uso de violência – pelo menos contra coisas, e não pessoas – é uma tática dos manifestantes de mostrarem seu descontentamento. “As pessoas usam violência quando se sentem violadas”, afirma Heige.

A solução, de acordo com Vera Chueiri, é o uso e aproveitamento das políticas públicas já existentes para lidar com a violência contra pessoa e bens dentro das manifestações. “Nós temos os instrumentos para poder tomar as providências, as políticas públicas e o treinamento dos policiais e agentes de segurança existem”, diz.

O jornalista e professor de Comunicação Social, que estuda os movimentos sociais, Mário Messagi, acredita que a intenção da Lei Antiterrorismo pode ser assegurar que os black blocks – grupo de pessoas que vandalizam e têm atitudes violentas durante protestos pacíficos – não aconteçam como em junho de 2013, mas consequentemente, a lei poderá inibir movimentos de descontentamento pacíficos. As manifestações que causaram receio no Senado aconteceram em junho do ano passado em fator do descontentamento da população com os governos federal, estaduais e municipais, em relação a variados temas políticos e sociais, e teve como estopim o aumento das passagens do transporte público, envolvendo vários governos municipais.